A varanda do frangipani

adaptación teatral en portugués de la novela homónima de Mia Couto (Moçambique), por Julio Salvatierra Cuenca

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Cena 1 “Pangolins”

                        Nhonhoso, velho preto, e Domingos Mourão, velho branco, os dois mais
idosos que o mar.

Nhonhoso.- Sou o morto. Sou o morto! Se eu tivesse cruz ou mármore neles estaria escrito: Ermelindo Mucanga. Mas eu faleci junto com meu nome faz quase duas décadas. Durante anos fui um vivo de patente, gente de autorizada raça. Mas se vivi com direiteza, desglorifiquei-me foi no falecimento. Me faltou cerimónia e tradição quando me enterraram. Não tive sequer quem me dobrasse os joelhos. E por isso agora sou o morto…

Domingos.- (Que estava junto dele desde o início) Olha, preto, que quase tens razão…

Nhonhoso.- Cale-se, camaleão, você não sabe que pessoa deve sair do mundo tal igual como nascéu? Um morto deve ter a discrição de ocupar pouca terra.

Domingos.- Então tu vais ser um morto muito pouco discreto, sim…

Nhonhoso.- E você um mulungo que só chateia. Vocês lhe sepultaram sem virar o seu rosto a encarar os montes Nkuluvumba, caraças de portugueses!

Domingos.- E então?

Nhonhoso.- Nós, os Mucangas, temos obrigações para com os antigamentes. Nossos mortos olham o lugar onde a primeira mulher saltou a lua, arredondada de ventre e alma…

Domingos.- Eu ainda gostava de ver uma mulher assim…

Nhonhoso.- Você só pensa nisso. Mas é que como não lhe apropriaram funeral, ele ficou em estado de xipoco… você sabe o que é um xipoco, Domingos?

Domingos.- Uma alma que vagueia de paradeiro em desparadeiro, desencontrada da sua morte, como nós.

Nhonhoso.- Mais de vinte anos esteve aqui mesmo, debaixo da sua frangipaneira, e ninguém sabia, nem se lembrava… nem sequer você, que tanto gosta da árvore.

Domingos.- ¿Mas que mania te deu agora com esse morto? Não te basta a morte do director?

Nhonhoso.- Os mortos não sonham, sabia?

Domingos.- Não.

Nhonhoso.- Os defuntos só sonham em noites de chuva. No resto, eles são sonhados. A mim só o frangipani me dedica nocturnos pensamentos…

Domingos.- Pára já com isso…

Nhonhoso.- É que ele vai voltar.

Domingos.- Quem?

Nhonhoso.- O morto.

Domingos.- Qual dos dois: o teu velho ou o nosso director?

Nhonhoso.- O velho, o mucanga.

Domingos.- Ah, é? E porquê?

Nhonhoso.- Não sei. Se calhar porque foi acordado pela gente que veio buscar os seus restos. Dizem que foi um herói nacional.

Domingos.- E tu acreditas?

Nhonhoso.- Você não?

Domingos.- Claro que não.

Nhonhoso.- E porquê?

Domingos.- Mas tu és parvo? Pobre carpinteiro! E agora é um herói revoluçionário…! Precisam contentar os mucangas, apenas isso.

Nhonhoso.- …Os do governo querem contentar a minha tribo e por isso inventam que ele foi um héroi…?

Domingos.- Pois.

Nhonhoso.- …sacanas … sabe que se calhar tem razão…! se calhar é isso! E é por isso que ele está zangado…!

Domingos.- Quem?

Nhonhoso.- O morto. Ermelindo.

Domingos.- O morto está zangado?

Nhonhoso.- Sim. Eu sinto que se aproxima, mas vem zangadinho…

Domingos.- Preto do caraças…

Nhonhoso.- É verdade, português. Imagine: eu estou morto e não tenho apetência para herói póstumo. E chegam os do governo a fazer as suas condecorações e as suas confusões todas… Que posso eu fazer…?

Domingos.- A verdade é que não faço ideia.

Nhonhoso.- Mas você pense que eu, o morto, sou um simples carpinteiro da terra, sem cultura… o que é que eu faço…?

Domingos.- Sei lá…!

Nhonhoso.- 0 pangolim…!

Domingos.- Outra vez?

Nhonhoso.- Sim, sim! O pangolim… o animal sagrado que mora com os falecidos e traz as suas mensagens… O melhor que eu posso fazer é me consultar com ele…

Domingos.- Mas agora não…!

Nhonhoso.- Sim, tem que ser agora… o morto se aproxima!

Domingos.- Ó Nhonhoso, não me chateies!

Nhonhoso.- Ó halakavuma, então o que devo fazer?

Domingos.- …! Ó Nhonhoso! deixa-me em paz!

Nhonhoso.- Não, não, é importante…! …Que devo fazer? Por favor…

Domingos.- …então o senhor quer ser herói, ou não quer?

Nhonhoso.- Mas você acha que os pangolims falam assim!?

Domingos.- Mas eu sou um pangolim-português, não é? um halakavuma-colono… e falo como me apetecer.

Nhonhoso.- ‘Tá bem, ‘tá bem… Que devo fazer?

Domingos.- (…)

Nhonhoso.- Ó halakavuma, que devo fazer?

Domingos.- … Não quer ser herói?

Nhonhoso.- Não, um herói é como um santo. Ninguém o ama de verdade…

Domingos.- De certeza?

Nhonhoso.- Sim…

Domingos.- Absoluta?

Nhonhoso.- Sim.

Domingos.- Mas não lhe apetece ficar vivo outra vez…?

Nhonhoso.- Não, como está a minha terra, não.

Domingos.- Olhe que aquele será, para sempre, o seu jardim: entre pedra ferida e flor selvagem…

Nhonhoso.- Ó Mourão, os pangolins não são assim tão chatos…!

Domingos.- `Tá bem. Você, Ermelindo… (é Ermelindo, não é…?) …você deve remorrer.

Nhonhoso.- Remorrer?

Domingos.- Sim.

Nhonhoso.- Mas na minha familia sempre morreram muito mal… O meu avô, por exemplo, durou infinidades… e com certeza, ainda não morreu…

Domingos.- É um risco que você dever correr.

Nhonhoso.- Quer dizer que eu vou ter que fantasmear-me no corpo dum alguém?

Domingos.- Você irá exercer-se como um xipoco, sim senhor.

Nhonhoso.- E depois morrer outra vez com ele…

Domingos.- Sim.

Nhonhoso.- Deixe-me pensar… não sei… quem? Tem que ser alguem que morra depressa… Mas ninguém conhecido, até me dava vergonha…!

Domingos.- Então já sei. É um de fora, que vai chegar muito rapidinho.

Nhonhoso.- Sim? Nos últimos dez anos não aparecéu ninguém…

Domingos.- Vais ver, preto, como agora está alguém para chegar.

Nhonhoso.- Ah, é? Quem?

Domingos.- Um polícia.

Nhonhoso.- Você é maluco.

Domingos.- Um polícia que vem investigar a morte do director do nosso asilo.

                        (Entra Nãozinha, velha preta, mais idosa que o mar)

Nhonhoso.- E como sabes?

Domingos.- Eu sei…

Nãozinha.- O que é que estão vocês a fazer aqui os dois?

Nhonhoso.- Nós não somos nós os dois.

Nãozinha.- Então?

Nhonhoso.- Eu sou o morto. Ermelindo Mucanga, o morto que morava debaixo desta frangipaneira e que ninguém conhecia.

Nãozinha.- E tu?

Domingos.- Eu sou o pangolim conselheiro.

Nãozinha.- Dois meninos é o que vocês são. E estavam a falar de quê?

Nhonhoso.- Eu tenho que voltar à vida, Nãozinha. Não tenho apetência para herói póstumo…

Domingos.- Decidimos que entrará de xipoco num polícia que está para chegar, e assim quando o polícia morra, ele poderá descansar…

Nãozinha.- Esse polícia morrerá dentro de três dias.

Nhonhoso.- E como o sabes?

Nãozinha.- Sei… e tu… tens vontade de voltar à vida, Ermelindo?

Nhonhoso.- O que mais quero, mas muito muito, é poder lembrar-me das mulheres que amei. Eu amei muitas…!

Nãozinha.- Você mal chegue à vida queime umas sementes de abóbora.

Domingos.- Para quê?

Nãozinha.- O pangolim não sabe? Queimar pevides faz lembrar amantes esquecidos… mas, tu, Ermelindo, vais confiar neste pangolim?

Nhonhoso.- E porque não…?

Nãozinha.- Está já um pocado gasto…

Domingos.- Mas ainda serve. Imagina que ainda encontra uma mulher para se apaixonar… no corpo do polícia voltará a ser jovem…

Nãozinha.- Está a avaselinar a conversa, tenta convencer-te…

Nhonhoso.- Que mulher vou encontrar no asilo…?

Domingos.- Sabes muito bem: a Marta…

Nhonhoso.- Ó branco, Marta não é uma mulher, é uma garça… ela sempre dorme nua sobre a terra e se tapa com os seus braços…

Domingos.- Pois…

Nhonhoso.- Antes eu cobri-as com meu corpo, agora só lhes tapo com cobertor…

Domingos.- Se calhar é a ocasião de voltar ao passado…

Nãozinha.- Este branco não é pangolim, senão o diabo…

Domingos.- Então? É o mesmo medo que os vivos sentem quando se imaginam morrer… Ermelindo é um cobarde ou não?

Nhonhoso.- ‘Tá bem: o morto voltará à vida…

Cena 2 “A chegada de Izidine”

                        (Entram Marta e Izidine)

Marta.- A Fortaleza de São Nicolau é uma pequenita mancha que cabe num pedacito de mundo…

Izidine.- Vista desde o helicóptero, a fortaleza é, antes, uma fraqueleza…

Marta.- Depois da guerra, o asilo mudou pouco. Esse é o armazém, que já não se utiliza. A península permanece ainda rodeada de minas e ninguém ousa sair ou entrar, salvo pelo ar.

Izidine.- Esse é o velho português, não é?

Marta.- Sim, Domingos Mourão, e o outro é Nhonhoso. E ela é Nãozinha.

Izidine.- Boa tarde… eu sou Izidine Naíta… sou polícia… estou contente de estar aqui…

Nhonhoso.- Eu não.

Izidine.- Como?

Nhonhoso.- …

Izidine.- Desculpe, não ouvi…

Nhonhoso.- Não disse nada.

Nãozinha.- Disse que ele não está contente de estar aqui.

Nhonhoso.- ‘Tá calada!

Nãozinha.- É bom que ele saiba que não estamos contentes. Eu também não estou.

Izidine.- E porquê?

Nozinhá.- Por causa das crianças. Tiraram todas as crianças, sabe? E a gente pensa então que as crianças somos nós… mas nós somos só velhos, não é?

Izidine.- …é. Bom, vou ter que falar com vocês nos próximos dias, um de cada vez… mas não é nada de preocupar…

Domingos.- Você quer falar conosco?

Izidine.- Sim. Você quer ser o primeiro?

Domingos.- Pode ser.

Izidine.- Quero ouvir a sua versão do que aqui ocorreu…

Domingos.- Quando caia a noite.

Izidine.- Combinado.

                        (Marta e Izidine afastam-se deles)

Nhonhoso.- E tu, fetiçeira, porque andas a desdizer-me diante das pessoas?

Nãozinha.- Ele é “bom rapaz”… e tem três dias contados de vida… e eu falei por mim. Não fiz nada de mal.

Nhonhoso.- Da próxima vez fala por ti calada!

Nãozinha.- E tu se não queres falar não fales, mas não fales e depois não digas que não falei fala nenhuma!

Domingos.- Já chega.

Nhonhoso.- Que lhe vais contar, português?

Domingos.- A verdade.

Nhonhoso.- Qual?

Domingos.- Não sei, já inventarei alguma… Então, vinha ou não vinha o polícia?

Nhonhoso.- Vinha.

Domingos.- E o morto? Achas que já entrou nele?

Nhonhoso.- Entrou.

Domingos.- A sério?!

Nhonhoso.- Já te disse.

Nãozinha.- E pode ouvir o que ele está a falar?

Nhonhoso.- Pode…

Izidine.- Naquelas rochas?

Marta.- Sim. O piloto do helicóptero viu o corpo nas rochas. Mas quando lá chegaram, o corpo já não estava.

Izidine.- E como pode ser?

Marta.- Deveria inspecionar as ondas, inspector. Elas sabem muitas coisas…

Izidine.- Que podem saber?

Marta.- Escute… Sob o ruído da rebentação escondem-se as vozes dos naufragados, e a do próprio Vasto Excelêncio…

Izidine.- Não posso acreditar nisso.

Marta.- Está a ver a sua arrogância? Se quer um conselho: deixe as coisas quietas… Respeite o nosso mundo e começará a perceber coisas que para nós são tão evidentes como o mar.

Izidine.- Então você acha que devo ficar aqui a ouvir as ondas da praia?

Marta.- Poder ser… venha comigo. Todas as manhãs o morto grita o nome do assassino e clama juras de vingança…

                        (Saem e aparece Vasto Excelêncio…)

Vasto.-           Isso é mentira, sou Vasto Excelêncio, estou morto também e não clamo nada, a única coisa que eu quero é sair daqui. Fui assasssinado há já varios dias, mas pelos vistos todo esto da morte está muito mal sinalizado, e não consigo encontrar a saída… Por isso acho que vou contar-lhes a minha história. Eu nasci de ninguém, à serio: fui eu que me gravidei. Dos meus pais, que não conheci, só sei que eram de cores diferentes, e que negaram esta herança mulata das suas vidas. Assim o único que tive foi Geguê, meu tio: ele é a única imagem que se repete nas recordações da minha infância… Shhh! Vem gente…!

Cena 3 “Primeira noite: a morte segundo Xidimingo”

Domingos.- Sou português, Domingos Mourão, mas aqui me chamam Xidimingo… Tudo sempre se passou aqui, senhor inspector, nesta varanda, por baixo desta árvore do frangipani, que é a única na vossa terra que no Outono fica sem folhas. Só ela me devolve esse sentimento do passar do tempo… Pois, nesta mesma varanda, aquela tarde que você pergunta, estávamos Nhonhoso e eu, falando…

                        (Transição)

Nhonhoso.- Você, Xidimingo, pertence a Moçambique, este país lhe pertence. Isso nem é duvidável. Mas não lhe traz um arrepio ser enterrado aqui?

Domingos.- Porquê?

Nhonhoso.- É que os seus espíritos não pertencem a este lugar. Aqui, você será um morto sem sossego…

Domingos.- Eu não tenho sossego há já muito tempo. Mas é engraçado… levo todo o dia pensando que é hoje o dia da minha morte… Não é engraçado…?

Nhonhoso.- Não vejo a graça em lado nenhum…

Domingos.- Sim, sim, acho que eu gostaria de morrer hoje…

Nhonhoso.- Não diga parvoiçes…

Domingos.- Deus: eu quero morrer hoje!

                        (Aparece Vasto Excelêncio)

Nhonhoso.- Páre com isso!

Domingos.- Mas é verdade, a morte não haveria de me doer, hoje…!

Vasto.-           Vê lá que eu ainda te faço a vontade. Queres mesmo morrer, velho? Ou não será que já morreste e, simplesmente, não foste informado?… Não tenha medo, velho rezingão. Amanhã já vou daqui embora. Não acredita?

Domingos.- Não.

Vasto.-           E sabe que mais, velho? Vou levar comigo a Marta. Está a ouvir? Não diz nada?

Domingos.- Que nada?

Vasto.-           Sem Marta quem é que você vai espreitar? Heim? Quer saber porque sempre lhe tratei mal, Mourão? A você que é um anjo caído dos lusitanos céus…? Dói? Como pode ser? Os anjos não têm pés! Está a fingir de pedra? Pois, então: a pedra não é coisa de se pisar? Não. O chefe não quer dizer nada a este pobre preto, não é? Mais de cinquenta anos de poder para vir acabar aqui neste ossário de idiotas, morrer aqui, pronto, de miséria… como pode ser? Onde esteve o erro?… diga alguma coisa… velho cabrão…!

                        (Entra Marta)

Marta.- Vasto!

Vasto.-           …então?

Marta.- Deixa-o.

Vasto.-           Estávamos aqui a falar um bocado, o Xidimingo e eu, embora ele esteja… taciturno… mas será melhor que eu vá arranjar as minhas malas…

Marta.- Eu também acho.

Vasto.-           Vem comigo, Nhonhoso?

(Vasto sai e Nhonhoso atrás dele)

Marta.- Sente aqui, Domingos. Você não entende as maldades dele, não é?

Domingos.- Não.

Marta.- É que você é branco. Ele precisa de o maltratar.

Domingos.- E porquê?

Marta.- Tem medo que o acusem de racismo.

Domingos.- Não entendo…

Marta.- Há tantas coisas que não entendemos, não é? Mesmo nos nossos próprios actos…

Domingos.- Você não devia estar com esse homem, Marta… o que foi…? Vasto lhe bateu outra vez?

Marta.- Deixe, não é nada…

                        (Sai Marta)

Domingos.- (A Izidine) Então tudo me aparecéu simples: Vasto Excelêncio deveria desaparecer: eu o devia matar o mais breve possivel…

Izidine.- Você?

Domingos.- Pois.

Izidine.- Você sózinho, contra ele?

Domingos.- Sim, mas minha raiva era uma criatura já muito crescida…!

Izidine.- Mas… como?

Domingos.- Eu chamei-o: Vasto! Vasto Excelêncio! Vem cá, meio preto! Sou eu, Xidimingo

                        (Aparece Vasto)

Vasto.-           Então? Queres mais conversa?

Domingos.- Não.

Vasto.-           Então que queres?

Domingos.- Quero que me queiras…

Vasto.-           O quê?!

Domingos.- Quero carinhos, querido.

Vasto.-           Doido do caraças!

Domingos.- Sim, quero carícias no caroço, caro mio.

Vasto.-           Suca, mulungo!

Domingos.- E que me aqueças as coxas, cuculindo…

Vasto.-           Sai daí, caraças…!

Domingos.- Cucurbitáceo vasto e Excelêncio!

Vasto.-           Juro-te…!

Domingos.- …que aquecerás o teu croquete para mim?

                        (Entra Nhonhoso)

Nhonhoso.- …que se passa…!?

Vasto.-           Satanhoco, vou-te matar…!

Domingos.- Com a tua cuidadosa cuidança, quando queiras…!…!

Nhonhoso.- Meu deus!

Vasto.-           O português acabou de perder a cabeça…!

Domingos.- É, e estou no céu…!

Vasto.-           Vai chamar Marta! Está doido!

Nhonhoso.- Meu deus! (Sai)

Domingos.- Queres vir na minha cubata, cumulato?!

Vasto.-           Ainda vais ver…!

Domingos.- Como me cuidas as cuecas, querubim?

Vasto.-           Traz essa mão…!

Domingos.- Ou como cumulas cum-quibus no cú?

(Vasto cai ao Chão, morto)

Domingos.- …Foi assim mesmo, inspector.

Izidine.- Francamente, Domingos…

Domingos.- Assim foi, mas agora, por favor, me deixe só, inspector…

Izidine.- Mas e o punhal com que o matou, onde está?

Domingos.- Não, inspector, não… a memória me chega rasgada… porque agora custam-me as pequenas mortes, sabe…?

Izidine.- Quais pequenas mortes…?

Domingos.- …essas que apenas notamos na íntima obscuridade de nós….

Izidine.- Compreendo, mas…

Domingos.- Obrigado, mas me deixe agora, inspector, que eu acabei de morrer um bocadinho… boa noite…

Izidine.- Boa noite.

(Sai Izidine. Focamos Vasto, que volta à vida e fala para o público)

Vasto.-           Esse velho branco tem muita imaginação! Mas agora que estou morto gosto mais dele… se calhar antes não podia aceitar gostar dum branco… não sei… lembro-me dum sonho de quando era pequeno: a minha mãe me seguraba as mãos e me dizia: “filho, não vires nunca as costas ao coração, o teu comportamento será minha recompensa”, mas acordei e eram os braços do meu tio Geguê que me seguravam, e neles havia agora um braçadeira vermelha com letras negras: G.V. “Grupo de vigilância, sim senhor. Agora também sou…”. E foi aí que tudo começou… Vem gente outra vez…! Assim não há maneira de contar nada…!

Cena 4 “Segundo dia”

                        (Entra Izidine)

Marta.- Sente-se. Estou tratando de Domingos. Tem havido casos de lepra e tenho que certificar que já não há…

Nãozinha.- Teve pesadelos, não foi, senhor polícia?

Izidine.- Sim, como sabe?

Nãozinha.- Depois de falar a noite toda com esse branco é normal…

Domingos.- Olha que pernas. O tempo é um fumo, nos vai secando as carnes. Não me cheire, enfermeira.

Marta.- E porque não?

Domingos.- É que, de mim, está sair um cheiro de vela apagada, um bafo de coisa morta.

Nhonhoso.- É de não se lavar, apenas isso.

Domingos.- Tu cala, Nhonhoso, não fales de ti próprio…

Marta.- Você anda a comer o quê, Domingos?

Domingos.- Cenouras.

Marta.- Não me venha com essa história das cenouras. Essa história é para contar aqui ao inspector, não a mim.

Izidine.- Já me contou algumas histórias ontem, mas eu precissava falar consigo hoje.

Marta.- Pronto, vão lá, agora preciso falar com o inspector.

(Afastam-se os velhos)

Marta.- Então, inspector?

Izidine.- Encontrei uma espingarda, ontem à noite, junto às rochas.

Marta.- Uma espingarda? Isso não é possível. O senhor deve-se ter enganado…

Izidine.- Você não tem nenhuma vontade de me ajudar, não é? Você acha que sou ridículo?

Marta.- Não, senhor inspector.

Izidine.- Páre já com isso! Voçê está a esconder qualquer coisa! Acha que eu não percebo?! Acha que eu acredito que você não sabe perfeitamente o que acontecéu aqui!? Tudo passa por si! Acha que eu sou parvo!? Posso não saber nada deste mundo, mas tenho olhos na cara. E deixe-me dizer-lhe que ocultar os dados que você conhece é punível por lei.

Marta.- Escute, o verdadeiro crime é que estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor…

Izidine.- Como eu?

Marta.- Sim, senhor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação!

                        (Sai Marta)

Domingos.- Estás a ver? É claro que não…

Nhnhoso.- Eu digo-te que sim.

Domingos.- Pois eu digo-te que não.

Nhonhoso.- Ó Nãozinha: porque é que os brancos percebem tão poucas coisas?

Nãozinha.- São todos parvos, apenas isso.

Domingos.- E por que os pretos inventam tantas outras?

Nãozinha.- Será por que nunca tiveram coisas nenhumas…

Domingos.- Bah! Entendimento é o que não têm. Tudo isso são fantasias…

Nonhosó.- Até o pangolim disse que a Marta se ía apaixonar por ele…!

Domingos.- Eu não acredito que ela goste desse feio polícia, e é a minha última palavra.

Nãozinha.- Não é assim tão feio… é um homem bastante bonito…

Domingos.- Não será que és tu quem está a gostar dele…? einh… Nãozinha…?

Nãozinha.- Eu! Não me faza rir… eu! Boa dança! Xidimingo, por vezes você é engraçado…

Nonhosó.- Atenção! Aí vem ele! (Arranja-te, Nãozinha!)

Nãozinha.- (Estou bem assim?)

Domingos.- (Uma sereia…!)

Izidine.- Hoje vocês sim parecem estar contentes…

Nhonhoso.- É a vida, que hoje é branca e amanhã preta… mas sempre bonita, não é, Nãozinha?

Nãozinha.- Sim.

Izidine.- …É. (Para Nhonhoso) Você quer ser o seguinte a depôr?

Nhonhoso.- Sim. Mas tem que ser já… assim depois você fica livre para o que vier…

Izidine.- ‘Tá bem… vamos então para baixo dessa sombra?

Nãozinha.- Até logo, inspector… já sabe onde é que eu estou…

Izidine.- …sim, obrigado… amanhã falo com você…

Nãozinha.- Até amanhã, então…

                        (Izidine e Nhonhoso afastam-se para um canto)

Domingos.- Bom, eu fico aqui a descanssar… (Prepara a sua manta) Mas diz-me uma coisa, Nãozinha: gostas dele a sério?

Nãozinha.- (…!)

 

Cena 5. Segunda noite: a morte segundo Nhonhoso.

                        (Nhonhoso e Izidine na varanda, afastados da árvore, e Domingos a dormir perto deles)

 

Nhonhoso.- Pois, lembro-me muito bem daquela noite. O Xidimingo e eu estávamos na varanda depois do jantar, e o velho branco começava a adormeçer, o que era bom, pois o que eu ía fazer exigia muita sombra e poucos olhos..

                        (Transição – Nhonhoso levanta-se e vai junto da árvore, pega num machado e começa a cortar a árvore…)

Domingos.- (Acorda) Que estás fazer, caraças de tu!

Nhonhoso.- Não está a ver? Estou cortar essa árvore.

Domingos.- Pára com isso, Nhonhoso, essa árvore é minha.

Nhonhoso.- Sua? Suca mulungo, não me chateie.

                        (Domingos atira-se contra Nhonhoso. Lutam)

Nhonhoso.- Você sempre quer mandar em mim. Sabe uma coisa: colonialismo já fechou!

Domingos.- Não quero mandar em ninguém…

Nhonhoso.- Como não quer? Eu nos brancos não confio. Branco é como camaleão, nunca desenrola todo o rabo.

Domingos.- E vocês, pretos, vocês falam mal dos brancos mas a única coisa que querem é ser como eles…

Nhonhoso.- Os brancos são como o piripiri: a gente sabe que comeu porque nos fica a arder a garganta.

Domingos.- A diferença entre nos é que, a mim ficam cabelos no pente enquanto a você ficam pentes no cabelo.

Nhonhoso.- Cala, Xidimingo. Você é um arrota-peidos.

                        (Domingos ri-se)

Nhonhoso.- Você está a respirar, Mourão?

Domingos.- Ouve, Nhonhoso: queres apanhar outra vez?

Nhonhoso.- Você é que apanhou maningue, seu velho branco…

Domingos.- Dexa-me descansar um bocado e já te despacho uma boa murraça.

Nhonhoso.- Para me dar um murro você precisa descansar um século…

                        (Os dois se abraçam e riem)

Nhonhoso.- Eh pá, Xidimingo, estou-lhe a agradecer bastante.

Domingos.- Porquê?

Nhonhoso.- Charra! Eu quase ia morrer sem bater um branco.

Domingos.- Chamas a isto bater? Recebi foi carícias…

Nhonhoso.- Nada. Lhe arreei umas autênticas porradas.

Domingos.- Nhonhoso, me diz uma coisa, seu velho vagabundo: que motivo tinhas para cortar essa árvore?

Nhonhoso.- … Ajudar Nãozinha. A pobre já esgotara as ervas de nkakana nas imediações do forte.

Domingos.- Mas para que é que ela quer tanta nkakana?

Nhonhoso.- Para puxar o leite, avivar as mamas.

Domingos.- Leite? A velha tem mais de noventa.

Nhonhoso.- Diziam que ela matou o marido para ficar com os filhos e matou os filhos para ficar com os netos.

Domingos.- Essa velha é doida, Nhonhoso…

Nhonhoso.- Não sei, mulungo, não sei. Eu neste mundo acabei por não por certeza, e já não vou ter vida para mudar…

Domingos.- Ora, você, Nhonhoso, ainda vai ter vida para nos chatear muito. Sei quando uma pessoa vai morrer, é quando acorda com o umbigo nas costas.

Nhonhoso.- Não me faça rir.

Domingos.- É verdade. Meu tio, por exemplo, acordou-se com a barriga no inverso lado. Nesse mesmo dia se despediu.

Nhonhoso.- Você, mulungo, você só me faz rir. Você é boa pessoa.

Domingos.- Aí é que tu te enganas, Nhonhoso: eu não sou bom. Sou é muito vagaroso nas maldades… Estou a contar os dedos, a ver se me faltam… as lepras…

Nhonhoso.- Eh pá, já viu, Mourão? Lutámos, nós!

Domingos.- Foi bom, te dei um soco mesmo em plenas fuças.

Nhonhoso.- Puxa, até parecia Frelimo contra colonialismo.

Domingos.- Dizme uma coisa, agora que estamos sózinhos: é verdade que há um morto enterrado debaixo do frangipani?

Nhonhoso.- É.

Izidine.- Desculpe, Nhonhoso… mas de qué morto estavam a falar? Vasto aínda não tinha sido assessinado…

Nhonhoso.- Não, não, é outro morto.

Izidine.- Mas qual?

Nhonhoso.- Um outro que morreu ha vinte anos e que está enterrado aí por baixo de sí.

Izidine.- Aqui?!

Nhonhoso.- Sim. Tinha chegado uma carta do governo a dizer viriam desenterrálo rapidinho porque era um heroi nacional…

Izidine.- Ah…

Nhonhoso.- Posso continuar?

Izidine.- Sim, sim, por favor…

Nhonhoso.- Obrigado

Domingos.- Espero que não vão tocar a minha árvore por causa desse morto!

Nhonhoso.- Não sei, pelos vistos é um morto importante. Dizem que foi assessinado em vésperas da revolução pela mulher do capitão dos portugueses, que era sua amante.

Domingos.- E tu como sabes tudo isso?

Nhonhoso.- (Voz baixa) É estranho, mas assim que chegou a carta, eu começei a sonhar com ele…

Domingos.- Tens mais imaginação que idade, velho preto.

Nhonhoso.- Não, não… lhe digo: esse morto esta irrequieto… você não acredita em Deus, Xidimingo?

Domingos.- Eu acredito que a única coisa que Deus quer, sabe qual é?

Nhonhoso.- Qual?

Domingos.- Fugir do Paraiso: pirar-se daquele asilo…

Nhonhoso.- Bom, lá nisso, somos parecidos com Deus….

                        (Pausa. Os dois se acomodam debaixo das mantas)

Domingos.- Nhonhoso, estás a sonecar?

Nhonhoso.- Ainda. O que se passa, meu irmão?

Domingos.- É uma coisa que nunca encontrei ocasião de dizer. É que nós, brancos, parece temos as pilas pequenas.

Nhonhoso.- Também ouvi dizer assim. Mostra lá a sua, Xidimingo.

Domingos.- Está maluco? Não posso mostrar… Tu, se queres, espreita.

(Domingos levanta o elástico das calças, Nhonhoso espreita)

Nhonhoso.- …É verdade…

Domingos.- É verdade como?

Nhonhoso.- É quase um bocadinho pequena.

Domingos.- Mas pequena como?

Nhonhoso.- Um bocado sim, mulungo.

Domingos.- Não acredito.

Nhonhoso.- Para quê ia eu mentir, já a estas alturas…?

Domingos.- Dizes isso porque eu te dei uma boa murrada esta tarde…

Nhonhoso.- ‘Tá bem, se quer não acredite…

Domingos.- …mas assim duma só olhada não se pode saber certo… você está a falar de ouvido…

Nhonhoso.- ‘Tá bem… amanhã, de manhãzinha, vamos comparar, quando elas estão ainda acordadinhas, em serviço de horas-extras. De acordo?

Domingos.- ‘Tá bem.

(Pausa. Nhonhoso adormece. Entra Marta, e acomoda-se no seu cantinho da Varanda, para dormir. Nhonhoso fala dormido.)

Domingos.- Nhonhoso, estás a sonhar, seu malandro…

Nhonhoso.- Eh pá! E você me abana assim, quase me partia o sonho!

Domingos.- É bem feito que é para não sonhar mais… olha… (apontando para Marta)

Nhonhoso.- Eh pá, Mourão, me desmistifique lá esta dúvida. Será que sonhamos sempre com mulheres? Eu sempre sonho com a mesma mulher…

Domingos.- Quem é?

Nhonhoso.- É Marta, mesmo. Também quem a manda déspir-se aí, em frente de todos?

Domingos.- Nhonhoso… eu também sonho com a Marta

Nhonhoso.- Ah, é?

Domingos.- Sim… e agora?

Nhonhoso.- Olhe… eu nunca compartilhei meus sonhos com um branco… mas agora que já lhe bati, pode ser, não achas?

Domingos.- ‘ta bem

Nhonhoso.- E agora vamos a dormir.

Domingos.- ‘Tábem.

Nhonhoso.- Pode ser.

                        (Pausa)

Domingos.- Nhonhoso?

Nhonhoso.- Me deixe dormir, Xidimingo.

Domingos.- É só mais uma pergunta: você já viu a garça a adormecer?

Nhonhoso.- Já, porquê?

Domingos.- Ela tapa a cara com a asa. Como o homem quando chora:. A garça tem vergonha de dormir às vistas do mundo. Assim deveríamos fazer em hora de adormecer… porque adormecer assim ‘tá bem…

Nhonhoso.- …pode ser.

                        (Adormecem. Vasto entra. Nhonhoso espreita)

Vasto.-           Acorda… shhh…

Marta.-           Que se passa…?

Vasto.-           Vou-me embora daqui.

Marta.-           Quando?!

Vasto.-           Agora. É agora ou nunca. O helicóptero chegará dentro de duas horas.

Marta.-           …’tá bem…

Vasto.-           E tu vens comigo.

Marta.-           …vou contigo…!?

Vasto.-           Sim! É agora que eu posso sair deste desterro!

Marta.-           Eu não tenho opinião?

Vasto.-           Não tens tempo. Quando estivermos lá, poderás ter. Prepara-te. Tenho que ir ao armazém.

Marta.-           Não posso deixar os velhos aqui sem ninguém…

Vasto.-           Serão só uns dias. Logo enviarão outra pessoa…

Marta.-           …e além disso… não quero ir…

Vasto.-           Escuta bem: não há tempo para isso.

Marta.-           Não penso ir contigo.

Vasto.-           Ah, não? Fui eu que te trouxe para aqui! Compreendes!? E virás comigo agora!

( Nhonhoso levanta-se )

Vasto.-           Vai preparar as tuas coisas… depressa!

                        (Marta sai)

Nhonhoso.- Filho de quinhenta!

                        (escorrega com a manta e cai)

Vasto.-           Vai dormir, Nhonhoso!

Nhonhoso.- Satanhoco! Vem aqui…!

                        (Volta a trestapalhar-se e cai de novo)

Vasto.-           Te vais magoar.

Nhonhoso.- Vou-te cortar os gasganetes, mulato!

Vasto.-           O que é que me chamaste?!

Nhonhoso.- Filho de mulungo!

(Volta a tropeçar na manta e cai sobre Vasto, envolvendo-o nela.

                        Lutam comicamente)

Vasto.-           Ninguém me chama de mulato, caraças!

Nhonhoso.- Mulato-caraças!

Vasto.-           Deixa-me, preto!

Nhonhoso.- Mulato-caraças, mulato-caraças!

Vasto.-           Nhonhoso!!

Nhonhoso.- Mulato-caraças…!

(Vasto cae morto dentro da manta)

Nhonhoso.- E assim foi como esse mulato do caraças se foi…!

Izidine.- Nhonhoso, por favor…

Nhonhoso.- Foi assim mesmo, inspector, assim mesmo…

Izidine.- Quer que acredite que você conseguiu matar Vasto só com as suas forças e uma manta?

Nhonhoso.- Não… fui procurar mais forças no passado, de quando era jovem…

Izidine.- Nhonhoso…

Nhonhoso.- Quando se mata por amor isso acontece, sabe? E um velho como eu pode amar… pode amar tanto que mata… Se me quer prender, inspector…

Izidine.- …

Nhonhoso.- Boa noite.

                        (Sai Nhonhoso. Entra Marta)

Marta.-           Socorro!!

Izidine.- O que foi!?

Marta.-           Não sei, alguém me atacou… nem sei o que era…

Izidine.- Não vejo ninguém.

Marta.-           Assutei-me muito, acho que me magou no pescoço…

Izidine.- Deixe ver…

Marta.-           (Ri)

Izidine.- Então…?

Marta.-           Foi um morcego!! Olhe quantos há…!

Izidine.- …

Marta.-           Aqui os morcegos podem ser perigosos…

Izidine.- …já sei…

Marta.- Sabe o que deveríamos fazer agora?

Izidine.- O que deveríamos fazer?

Marta.- Sim, se fôssemos seguidores da tradição, sabe o que faziamos?

Izidine.- Não faço ideia. Deviamos, sei lá, tomar banho?

Marta.- Deviamos fazer amor.

                        (O polícia sorri…)

Izidine.- Mas… eu estudei fora… Boa noite… (Izidine sai)

Marta.- É pena o senhor não ser um seguidor da tradição. É pena, não acha…?

( Marta despe-se, e deita-se no chão. Voltamos a Vasto Exelêncio, que sai das profundezas da manta…)

Vasto.-           É pena, realmente, inspector. Marta é uma mulher como não há duas… mas só depois de morto é que se percebem muitas coisas. Em fim… continuo: a partir da sua entrada na milicia, meu tio começou a despachar mandos: “Shote-kulia, shote-kulia, esquerda-direita, esquerda-direita…” Eu, vendo como enchia de vaidade a sua magreza, dobrava os risos. Mas era verdade. Meu tio partiu-se para o quartel dos milicianos, e voltou promovido de poderes e marchando todo o tempo: “shote-kulia, shote-kulia…”. Na noite que voltuou me disse: “dorme, sobrinhinho, porque amanhã te vou ensinar maneira de um tipo desenrascar nesta vida…”…Charra! shhh …até logo…

Cena 6. Terceiro dia

                        (Amanhece. Marta dorme no chão. Izidine aparece)

Izidine.- Oh, desculpe…!

Marta.- Não! Fique, eu faço sempre assim…

Izidine.- Assim como?

Marta.- Durmo nua sobre a terra.

Izidine.- Eu espero aqui enquanto se cobre…

Marta.- Eu durmo aqui para receber da terra as suas secretas forças.

Izidine.- Suponho que eu já esqueci quais são essas forças, não é?

Marta.- Até aqui, neste lugar abandonado, ainda sinto esse perfume que vem das entranhas do mundo.

Izidine.- Talvez esse perfume venha de si e não da terra…

Marta.- Quem sabe?

Izidine.- Marta, eu quero perguntar-lhe uma coisa. Mas responda-me com verdade…

Marta.- Alguma vez fiz outra coisa?

Izidine.- Eu… eu quero saber se você teve um caso com Vasto Excelêncio.

Marta.- Um caso, dois casos, muitos casos…

Izidine.- Falo a sério, quero saber se vocês foram amantes.

Marta.- Tenho que ir ver o velho Domingos.

Izidine.- Espere, Marta, você tem que me responder.

Marta.- Você, aqui, não é autoridade nenhuma.

Izidine.- Marta, você tem que responder. Eu estou a trabalhar.

Marta.- Saia do meu caminho. Eu também tenho que trabalhar.

Izidine.- Escute bem, sua enfermeirazinha de distrito. Eu não estou a avançar. Agora já sei porquê… é você que me anda a estragar a investigação…

Marta.- Eu?

Izidine.- Sim, é você que anda a meter coisas na cabeça dos velhos, para eles inventarem disparates e me confundirem…

Marta.- Não são disparates! Você é que não percebe o que eles lhe estão a dizer.

Izidine.- Não percebo?

Marta.- Não. Por que é que você não deixa de ser polícia?

Izidine.- Acontece que sou polícia, e estou aqui para descobrir quem matou Vasto.

Marta.- É isso só que você quer: descobrir culpados. Mas estes velhos são o chão desse mundo que você pisa lá na cidade.

Izidine.- Qual chão, qual meio-chão…!

                        (Os três velhos ao fundo, a escutar disimuladamente, sem serem vistos)

Marta.- E quer condená-los, sabe porquê? Porque você tem medo deles!

Izidine.- Medo, eu?

Marta.- Sim, medo. Eles são o seu passado e lhe fazem lembrar de onde vem…

(Marta sai)

Domingos.- Estão a ver?

Nhonhoso.- Sim. Ela gosta dele cada vez mais.

Domingos.- Como são chatos vocês dois!

Nãozinha.- (Para Izidine) Bom dia, inspector: aqui me tem.

Izidine.- …não percebo…

Nãozinha.- Não quer falar comigo?

Izidine.- Ah…! Sim… mas é melhor não ser agora… mas diga-me…

Nãozinha.- Então não quer falar comigo…?

Izidine.- Quero, mas mais tarde. Diga-me, Nãozinha… o armazém qual é?

Nãozinha.- Ah, ‘tá bem. Então falamos mais tarde, não é? Não fuja de mim, inspector, que não sou perigosa… só que todos dizem que sou um bocado fetiçeira… (em voz baixa) mas não é verdade… mas não diga a ninguém! É que assim todos me respeitam…sabe?

Izidine.- Prometo não dizer a ninguém. Mas diga-me você: a porta do armazém é essa, não é?

Nãozinha.- Mas no asilo não há armazém… pergunte a eles também, se duvida de mim…

Izidine.- Ó Nhonhoso, a porta do armazém é essa, não é?

Nhonhoso.- É melhor o senhor não entrar aí

Izidine.- Porquê?

Nãozinha.- Esse armazém perdeu o chão.

Izidine.- Não tem chão?

Naozinha.- Não. Ali dentro há apenas um vazio…

Nhonhoso.- Um vazio dentro de um buraco. Aquele chão foi engolido pela terra.

Izidine.- Estou farto dessas estupidêzes…

Domingos.- Não vá, inspector. Faça caso destes velhos…!

Izidine.- Deixe-me, tenho que ir…

Domingos.- Não vá…

Izidine.- Saia da frente, Domingos…

                        (Nhonhoso levanta uma cadeira, ou uma pedra, como para bater por detrás a Izidine, na cabeça… e Escuro)

Cena 7. Terceira noite: a morte segundo Nãozinha.

                        (Nãozinha, a fetiçeira, sózinha no meio do vazio…)

Nãozinha.- Sou Nãozinha, a fetiçeira… Quando terminar a minha história todos os mochos do mundo estarão suspensos sobre essa árvore onde o senhor se encosta. Não tem medo? A morte está perto de si… Mas é melhor não ter medo. Por causa do medo, eu fui expulsa de casa…

                        (Luz irreal sobe também sobre Izidine, encostado na árvore, que escuta)

…e agora, cada noite eu me converto em água…

Izidine.- Se converte em água…?!

Nãozinha.- Sim. Por isso meu leito é uma banheira.

Inspector.- Pois… e os outros velhos conhecem o seu segredo…?

Nãozinha.- Sim, mas é que logo que amanhece, volto… embora eu gosstasse mais de ficar líquida..

Izidine.- Porquê?

Nãozinha.- “Em quem podes bater sem nunca magoar?”.

Izidine.- …na água

Nãozinha.- Percebe? Em mim, a vida pode golpear quando sou água. Agora já sabe o meu segredo… mas o que o senhor quer saber são ocorrências, não é? Pois, a elas regresso. Naquela noite, eu me dirigia para a minha banheira quando encontrei Nhonhoso e Xidimingo dormindo na varanda…

                        (Transição – Os dois velhos dormem, abraçados. Nãozinha se aproxima…)

Nhonhoso.- (Acorda, e começa a gritar) Meu Deus!! (Empurra a Domingos)

Domingos.- O que é isso, Nhonhoso, estás maluco?

Nhonhoso.- …Eu, eu pensei você já tinha-se apagado…!

Domingos.- E então, me empurras assim?

Nãozinha.- Não se pode deixar um alguém apagar-se no nosso colo. Os mortos se agarram à alma e nos arrastam com eles para as profundezas…

Domingos.- Profundezas do caraças! Quase me apaga aqui o preto…!

Nhonhoso.- Desculpe, Xidimingo…

Nãozinha.- Então vocês dois vão ficar aqui a dormir?

Domingos.- Sim.

Nãozinha.- Eu é que tenho mesmo que dormir na minha banheira. Senão até ficava aqui também…

                        (Entra Vasto)

Vasto.-           (Para Nhonhoso) O que é que eu te mandei fazer, madala?

Nhonhoso.- …

Vasto.-           Eu não disse para deitares a árvore abaixo?

Domingos.- Afinal, era isso!? Me cortavas a árvore a mando deste filho da puta?

Vasto.-           Cala-te tu também! Já sabem todos aqui o castigo que há para a insubordinação…

Nãozinha.- Excelêncio, você não vai arrear nestes pobres, não é…?

Vasto.-           Tu vais me dizer o que posso fazer ou não!? Tu?! Não voltes nunca mais a dizer-me o que tenho que fazer ou não! Compreendes? E vocês nem me ponham as mãos em cima. Nhonhoso, mandei-lhe cortar a árvore do tuga e você desobedeceu. Agora já sabe…

Nonhoso.- Eu sei. Mas estou a pedir uma coisa: não chame ninguém para me bater…

                        (Para Domingos)

Por favor, você me bata.

Domingos.- Bater-te? Estás doido?

Nhonhoso.- Eu não quero que seja um preto a me bater…

Domingos.- Não me peça isso, Nhonhoso. Eu não posso, não sou capaz…

Vasto.-           Não diga que você nunca arreou num preto. Heim, patrão?

Nhonhoso.- Sim, me satisfaça esse pedido, patrão…

Domingos- Não entendo, Nhonhoso: agora eu sou patrão?

Vasto.-           Sim, vocês brancos nunca deixaram de ser patrões. Nós, negros…

Domingos.- Qual nós negros? Você se cale, seu oportunista de merda.

Vasto.-           Calar-me? Se o patrão assim manda…

Domingos.- Eu não sou patrão de ninguém!

Nhonhoso.- E, é meu patrão…

Domingos.- Não sou patrão, caraças! Não me venham com isso, eu sou Domingos Mourão, porra! Ó Nhonhoso, sou Domingos! Sou o Xidimingo, caraças!

Nhonhoso.- Lhe peço, Mourão. Me bata.

Domingos.- Não posso.

Nhonhoso.- Não me vai magoar, lhe juro.

Domingos.- Vai-me magoar a mim, Nhonhoso.

Nhonhoso.- Lhe peço, Xidimingo. Faça isso, meu irmão…

(Domingos empunha um chamboco, devagar, e levanta o braço… um trovão enorme deflagra e começa uma tempestade de rasgar os céus)

Nãozinha.- (Para Izidine) Nunca ninguém havia presenciado tais zangas dos firmamentos! Os relampagos e os trovões se confundiam…! (Para os outros) Calem-se! Está a passar no céu o wamulambo!

Vasto.-           (Tremendo) O wamulambo!

Nãozinha.- Cale-se, satanhoco! (Vasto sai)

Izidine.- Desculpe, Nãozinha, mas o que é um wamulambo!?

Nãozinha.- O wamulambo é uma cobra gigantíssima que vagueia pelos céus durante as tempestades!

Izidine.- Uma cobra?

Nãozinha.- Claro, uma cobra…! Elas ajudam os donos mas, em contrapartida, estão pedindo sempre sangue…

Izidine.- Compreendo…

Nãozinha.- (Para Izidine) Mas eu carecia com urgência de me converter em água, assim que fui à minha casinha… abri a porta: e deparei com a banheira toda quebrada! Fiquei ali sentada… Nunca mais voltaria a amamentar meus netos, está a ver?! Assim que naquele mesmo momento eu me decidi a acabar… Peguei numa raiz de sândalo que guardei durante muitos anos, abria as pernas e, lentamente, fui espetando a raiz no centro do meu corpo… Deixei o veneno se espalhar nas minhas entranhas, e logo, regressei junto dos meus amigos.

                        (Volta junto aos velhos)

Nhonhoso.- Que se passa, Nãozinha?

Nãozinha.- Me venho despedir.

Domingos.- Mas você está sangrar em todas as pernas, Nãozinha! O que é que se passa?

Nãozinha.- É sangue do meu peito, foi esse mulato me bateu.

Nhonhoso.- Não, Nãozinha, esse sangue é outro…!

Domingos.- Que é que você fez-se?

Nhonhoso.- Ela se está suicidando. Encheu-se o seu corpo de mulher com uma raiz de sândalo, que é um veneno irremediável…

Domingos.- Mas algo haverá que possamos fazer…!

Nonhoso.- Sim… a única maneira é um de nós fazer amor com ela…

Domingos.- … Mas não é arriscoso? O veneno não pode passar para nós?

Nhonhoso.- Sim…

                        (…)

Nhonhoso.- Fica tranquilo, Xidimingos… é melhor ser eu…

Domingos.- Nem penses… é perigoso de morrer… e eu sou mais velho…

Nhonhoso.- Eu tenho a raça certa…

Domingos.- Ó preto: o remédio branco é igual de bom… o tamanho mesmo não interessa!

Nhonhoso.- Você se deita com a feiticeira e está mais condenado que palha de cigarro…

Domingos.- Não se discute mais, vou eu!…

Nhonhoso.- Eu!

Domingos.- Tá bem… eu não queria revelar isto, mas…

Nhonhoso.- Mas o quê …? Fale, homem!

Domingos.- É que Nãozinha, em tempos, levantou todas as saias para mim. E eu lhe olhei sem nenhumas roupas…

                        (Nhonhoso ri. Os dois velhos continuam a discutir em silêncio…)

Nãozinha.- (Para Izidine) O português não sabia que quando uma velha se desnuda e desafia um homem esse é um sinal de raiva, e não de cortejo…! Coitado, nem merecia, mas já era tarde para emendas….

Nhonhoso.- A sorte está lançada. Sou eu… Vamos?

Nãozinha.- Vamos lá para o meu canto. Adeus, Domingos Mourão, e obrigada…

Domingos.- Cuidem um do outro… e boa sorte…!

(Nãozinha e Nhonhoso vão para um quarto, sobre uma das mantas…)

Nonhoso.- Esta é a esteira… Mas quando se deitam dois amantes a esteira recebe nela a terra inteira…

Nãozinha.- Você fala as coisas bonitas, Nhonhoso. Mas, além das falas, ainda pratica coisas bonitas…?

Nhonhoso.- Sim, mas… sabe, Naozinha que tenho um bocadinho de medo…?

Nãozinha.- Medo?

Nhonhoso.- Eu sempre tive medo…

Nãozinha.- E se lhe faço uns carinhos…

(…)

Nhonhoso.- E inútil… como tirar ferrugem a um prego…

(Riem. Vasto aparece)

Vasto.-           Vejam só, que casalinho apaixonado nós temos aqui!! Sai daqui, cabrão!

(Nhonhoso sai)

Então esta galinha o que é que me pode oferecer…?

Nãozinha.- Vem cá, Vasto… tenho uma especial aguardentinha…

Vasto.-           Traz-me esse aguardente! E muito…!

Nãozinha.- (Para Izidine) Excelêncio bebeu e rebebeu. Até que uma tontura o deitou ao chão, delirando…

(Vasto cai ao chão, resonando. A luz centra-se sobre Nãozinha)

Assim mesmo, nua e húmida coincidi com seu corpo, concavidei-me com ele. Excelêncio me enredou nos braços. Seus beijos transpiravam a quente espuma da bebida… e em mim ele completou seus viris préstimos… e o veneno fez o resto…

Fui eu quem matou Vasto Excelêncio, inspector…

(Marta entra e aproxima- se de Izidine, que continua encostado à árvore, adormecido. Izidine acorda)

Izidine.- Que me aconteceu?

Marta.-           Uma pedra do telhado lhe bateu na cabeça. Mas a tem muito dura, mesmo…

Izidine.- Sonhei todo o tempo com Nãozinha… ela fez o seu depoimento no meu sonho… realmente todos os velhos me contaram umas histórias muito especiais…

Marta.-           Estes velhos mentem. E mais irão mentir se você continuar a mostrar interesse neles. Há muito tempo que ninguém lhes dá importância…

Izidine.- E que posso fazer?

Marta.-           Venha comigo. Está uma noite bonita para passear nos dois… dói-lhe a cabeça?

Izidine.- Nem muito. É verdade que é muito dura…

Marta.-           Olhe aquelas luzes, inspector.

Izidine.- Me chame de Izidine. Que são?

Marta.-           São archotes, Izidine, os velhos acendem-nos para apanhar lagostas.

Izidine.- Parecem flutuar na água do mar.

Marta.- Como as memórias destes velhos, que flutuam mais leves que o tempo…

Izidine.- Olhe a forma daquela rocha…

Marta.-           Nós a chamamos a rocha do pangolim… é um animal sagrado…

Izidine.- O pangolim mora junto dos deuses, e por vezes desce das nuvens para anunciar notícias aos homens…

Marta.-           …Afinal você não esqueceu a tradição… vamos ver se esqueceu outras coisas…

                        (Acotação inecessária…) (Focamos a Vasto, num lado)

Vasto.-           …É melhor eu continuar com minha historia, e não pensar. No dia seguinte meu tio Geguê me ordenou ir a casa da tia Carolina, assaltar o galinheiro, e pegar fogo nas traseiras….” Mas o senhor, um miliciano como pode…! “Ou você pensa que um milícia existe enquanto há paz?!” Me neguei, mas que podia eu fazer, era muito jovem… E fui… a partir de aí executei tantas maldades que eu já nem recordava as primeiras. Mas sobretudo, me ficava uma surpresa: as noites era deitar e dormir: onde estava, afinal, a minha consciência? Será que afinal pode haver bondade num mundo que já não espera nenhuma coisa…? Passado um tempo meu tio me entregou uma espingarda…

 

Cena 8. A ceremônia final

(Marta e Izidine)

Marta.-           O culpado que você procura, caro Izidine, é a guerra. Foi ela que matou Vasto. Estes velhos que aqui apodrecem, antes do conflito eram amados. As famílias se arrumavam para os idosos. Mas agora os velhos foram expulsos do seu mundo, e de nós mesmos…

Izidine.- Se calhar tem razão… é por isso que você veio para aqui trabalhar com eles?

Marta.-           Não. Eu não sou assim tão boa. Até houve um tempo que a cidade ainda me tentou.. Mas não é para mim.

Izidine.- Nem tudo é mau no mundo lá fora… as gentes são sempre as mesmas, mas com vidas diferentes.

Marta.-           Você, por exemplo, lá na polícia. Quanto tempo vai levar até ficar contaminado pela doença dos subornos? Transferiram-no da secção de estupefacientes. Porquê? E porque motivo o enviaram para aqui, longe dos rebuliços…?

Izidine.- Não quero falar disso, Marta…

Marta.-           Vou contar-lhe uma coisa: uma vez os bandos entraram aqui: roubaram, mataram e lançaram fogo sobre a enfermaria. Morreram duas velhas, e não morreram todos graças a quem? Graças a Vasto Excelêncio. Ele entrou pelas chamas adentro, arregaçando coragem e salvando os outros doentes…

Izidine.- Vasto já era director quando você chegou?

Marta.-           Há muito tempo fui enviada para um campo de reeducação, acusada de namoradeira em homens e em garrafas. No hospital, ninguém me defendeu. Nesse campo eu me degradava a custo de sexo, bebida e seringa… Foi ali que Vasto me encontrou…

Izidine.- E você se apaixonou por ele.

Marta.-           Um dia, já aqui, ele se chegou e me surpreendeu em flagrante lágrima. Me enxugou o rosto, e já sabe: quem limpa lágrima de mulher fica amarrado em nó de lenço…

Izidine.- E como era ele?

Marta.-           Vasto se sentia traído. Com o tempo os seus próprios companheiros lhe passaram a atirar à cara a côr da pele. O ele ser mulato esteve na origem daquele exílio a que o obrigavam.

Izidine.- Amava-o ?

Marta.-           Sim, apesar de tudo eu cheguei a amar esse homem. Não fique ciumento. Eu o desejava, sim, ele inteiro, sexo e anjo, menino e homem…

Izidine.- Era bonito?

Marta.-           E isso o que interessa? Num homem eu quero é tocar a vida. É isso que eu quero. Rectifico: era isso que eu queria…

Izidine.- Agora já não?

Marta.-           Nessa altura, eu ainda via os homens como as aves entendem a nuvem: um lugar onde se pode passar mas nunca habitar… Antes de me tocar Vasto pedia-me que chorasse. E ele sorvia minhas lágrimas como se fossem a última água. Hoje, que já não choro, entendo Vasto. Pela lágrima nos despimos até à nossa mais íntima nudez…

Izidine-          Marta, agora não só como polícia, mas também como homem, eu preciso saber quem o matou.

                        (Entram os três velhos)

Domingos.- Temos que falar consigo.

Izidine.- Agora?

Nãozinha.- Sim, não há tempo a perder.

Izidine.- O que se passa?

Nhonhoso.- Nós não lhe confiamos, inspector.

Izidine.- Já me dei conta. Mas porquê? Acham que não sou um homem bom?

Nhonhoso.- Você não é bom nem mau. Você simplesmente inexiste.

Izidine.- Como inexisto?

Nhonhoso.- Você fez circuncisão?

Izidine.- …Vão-me circuncisar?!

Nãozinha.- (Ri) Não! Você já é muito adulto! Mas se você quer ser admitido na família dos mais crescidos, temos que fazer uma cerimónia, sim… para além da que vocês dois já fizeram…

Izidine.- Estão a falar a sério?

Marta.-           Muito a sério, Izidine.

Izidine.- …‘Tá bem! Que tenho de fazer?

Nãozinha.- Vista-se com este fato. (Dão-lhe um fato de Marta)

Nhonhoso.- Nesta festa, você faz conta que é mulher.

                        (Começam a cantar e a fazer músicas)

Nãozinha.- Dançe, inspector!

Domingos.- Tem que cantar, também!

Nhonhoso.- …Assim dançam na Europa?!

Nãozinha.- Dança pior que o Xidimingos!

Domingos.- Va lá, inspector, mais alto…!

Nhonhoso.- Pense em Marta, inspector!

                        (etc, etc. Pouco a pouco todos começam a dançar também…)

Domingos.- Bemvindo, inspector!

Nhonhoso.- Bemvindo!

Marta.-           Bemvindo, Izidine!

                        (A feitiçeira entra em transe…!)

Nãozinha.- Cuidado, inspector! O senhor deveria ter tido maneiras para rondar por aí. Mas não. O senhor espantou a verdade. Você estudou em terra dos brancos, e conhece esta nova vida que nos chegou depois da guerra. Por isso lá em Maputo eles o odeiam. Deixe a polícia! Você é um fruto bom numa árvore podre… Cuidado!! Vejo sangue! Eles virão amanhã para lhe matar! O assassino é o piloto que o trouxe de helicóptero… Izidine: esta fortaleza é um depósito de morte…!

Domingos.- A única razão do crime, foi o negócio de armas.

Nhonhoso.- Excelêncio escondia armas no armazém.

Domingos.- Quando demos conta, decidimos eliminá-las

Nãozinha.- Eu abri no chão do armazém um buraco sem fundo…!

Nhonhoso.- E atiramos os armamentos nessa fundura!

Domingos.- Ainda agora estão a escoar para além do mundo!

Nãozinha.- Um dia o helicóptero voltou cheio de homens!

Nhonhoso.- Mas as armas não estavam…!

Domingos.- Assassinaram Vasto e atiraram seu corpo para as rochas!

Nãozinha.- Foram eles! Os mesmos que irão matar-lhe, inspector! Cuidado! Amanhã, háo-de vir para lhe matar!!

 

                        (Escuro. Vasto num lado)

Vasto.-           O tempo se acaba, e devo despacharme… Com aquela arma que me ofereçeu meu tio eu aperfeiçoei malvadezes. Assaltava machibombos, vazava cantinas. E quando não roubava mascarado, eu era adjunto de milícia, com a minha braçadeira vermelha… e aos poucos, por obra minha e de Geguê, nascera a guerra, onde eu acabei de morrer… e passei ao exército, ganhei poderes, propaguei assaltos, consporcarias, animaldades… E quando a guerra acabava conheci a Marta, uma luz que vinha do escuro… mas já era tarde: como esqueçer uma vida inteira? Agora acabou todo, e o meu final é só uma historia triste que todos preferem esquecer…

                        (Luz. Os três velhos)

Nhonhoso.- Sou o morto. Sou eu, Ermelindo Mucanga. Já não habito no corpo de Izidine Naíta. Agora estou aqui, novamente: esta é a minha terra!

Domingos.- Aqui: onde a terra se despe e o tempo se deita…

Nhonhoso.- Desencorpei-me dele porque não posso deixá-lo morrer, não é, halakavuma?

Domingos.- Tú é que sabes. Eu só aconselho os homens, eles decidem.

Nãozinha.- Deixem de brincar vocês dois. O helicóptero já vem…

Nhonhoso.- Mesmo tenha que sofrer condenação de ser promovido a falso herói, não posso aproveitar a sua morte para o meu descansso… Toda a minha vida tinha sido falsidades. Quando houve tempo de lutar pelo país eu me recusei. Em vivo me ocultei da vida. Morto me escondi em corpo de vivo… Agora é o último momento em que posso mexer no tempo, e fazer nascer um mundo em que um homem, só de viver, seja respeitado… não é?

Domingos.- Eu só digo que todo o ser é tão antigo quanto a vida. Mais nada.

Nãozinha.- Deixem-se de histórias! Ali vem o helicóptero.

Domingos.- Vai buscar os jovens! Nós traremos o furacão!

                        (Nhonhoso sai)                                    

                        Faça-me esse favor, Nãozinha…

Nãozinha.- Já lhe disse que o wamulambó sempre pede sangue…

Domingos.- Nós temos já tão pouco a perder…! Faça-me esse milagre!

Nãozinha.- O único milagre aqui é os mulungos incrédulos acreditarem nisto!

Domingos.- Faça isso, Nãozinha!

(O barulho do helicóptero se aproxima)

Nãozinha.- ‘Tá bem… mas… e se lhe digo que eu, na verdade… não sou feitiçeira nenhuma?

Domingos.- (Ri) Faça isso na mesma!

Nãozinha.- Venha o furacão!!

(Sob o barulho do helicoptero sobrepõe-se o da tormenta. A árvore começa a incendiar-se. Nhonhoso entra com Izidine e Marta)

Marta.-           Cuidado, o helicóptero está a arder!

Izidine.- Vai cair sobre o armazém!

Marta.-           Nãozinha…!! Domingos…!!

(Incrivel explosão… a árvore incendeia-se… escuro…(?)

                        A tempestade afasta-se, a árvore consome-se, a luz volta… silêncio)

Nhonhoso.- Eu já lhe disse que essa árvore é o lugar de milagre, Pangolim, não se lembra…?

Domingos.- E então?

Nhonhoso.- Vão lá.

Domingos.- E tu não vens?

Nhonhoso.- Já vou…

                        (Vão passando todos dentro da árvore, que começa a recobrar a côr e a vida…)

Naozinha.- Vasto…

Vasto.-           !! …sim?!

Naozinha.- Vem connosco, mulato… o preferes ficar aí plantado como um ataratonto?

Vasto.-           Não, não… vou… vou com eles, Marta… adeus…

Marta.-           Adeus… adeus…

Nhonhoso.- E assim, juntos, vamos entrando dentro de nossas próprias sombras, rumando pelas profundezas da frangipaneira… e sinto que já vou perdendo a língua dos homens, tomado pelo sotaque do chão… e me despeço da luz, da vossa dupla cintura de cristal, meus filhos…. Na luminosa varanda deixo meu último sonho, a árvore do frangipani…. E vou ficando do som das pedras, e me deito mais antigo que a terra…

Daqui em diante, vou dormir mais quieto que a morte.

                        (A luz desce lentamente, fazendo-os desparecer dentro da árvore. De fora permanecem Izidine e Marta, juntos até ao escuro final…)

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